Com o mercado indie saturado de roguelites que prometem inovação mas entregam fórmulas batidas, Katanaut chega chutando a porta (ou o ar) no universo dos roguelites espaciais e mostra que tem mais a oferecer do que só pixel art bonita e monstros bizarros. Desenvolvido inteiramente pela Voidmaw, o jogo chega em setembro oferecendo elementos souls-like e metroidvania conseguindo equilibrar familiaridade e originalidade de forma impressionante, com uma mistura de referências, ousadia e aquele saborzinho indie que a gente adora, tudo embalado numa estação espacial à beira do colapso em que o horror cósmico encontra a precisão cirúrgica do combate japonês, repleto de surpresas nada amigáveis.
O enredo de Katanaut é daqueles que pega o jogador pelo macacão espacial e joga direto no caos, mesmo com uma premissa que poderia soar genérica, mas que é executada com uma elegância sombria que remete aos melhores momentos de Dead Space e System Shock. Você é Naut, mandado pra investigar uma estação espacial pós-apocalíptica onde todos os humanos viraram aberrações e cada corredor esconde um susto (ou muito mais do que isso).

Diferente de muitos jogos do gênero, Katanaut trabalha o desenrolar da sua narrativa através dos fragmentos de memória espalhados pela estação, pois nesse futuro os humanos podem “baixar” novas habilidades sob demanda e esses fragmentos não são apenas mecânicas de progressão, mas pedaços da história dos que pereceram, cada um carregando uma habilidade perdida ou talento esquecido. É uma abordagem inteligente que transforma cada coleta em um momento narrativo, onde o gameplay e a construção do mundo se entrelaçam naturalmente, misturando mecânica e narrativa num pacote.
Fragmentos, memórias e mistérios
A verdadeira força narrativa de Katanaut não reside em diálogos longos ou cutscenes cinematográficas, mas na narrativa ambiental meticulosamente construída. Quanto mais o jogador desce pelos elevadores da estação, mais assombrados se tornam os ambientes e menos humanos os inimigos, fazendo com que a progressão funcione tanto mecanicamente quanto narrativamente, criando uma sensação crescente de claustrofobia e desesperança. A manipulação temporal avançada que ressuscita o protagonista sempre que seus batimentos cardíacos cessam adiciona uma camada narrativa fascinante, pois vai além de uma simples mecânica de respawn e se transforma em uma explicação contextual, que se integra organicamente ao lore do jogo, mostrando o cuidado que a Voidmaw teve em justificar cada elemento mecânico dentro do universo criado.

Através de um level design inteligente e muito competente, combinando salas artesanais com geração procedural, Katanaut consegue trabalhar uma mistura interessante de ambientes e que resulta em runs que podem variar drasticamente, de percursos rápidos e diretos a intensas investidas repletas de surpresas e emboscadas. A cada descida pelos elevadores da estação, o progresso obtido através dos fragmentos de memória coletados durante a exploração é mantido, criando uma sensação genuína de avanço mesmo após a morte. O sistema de progressão é particularmente bem pensado, fazendo com que deixe de lado o acúmulo de moedas genéricas para que os fragmentos de memória sejam utilizados como mecânica e parte da narrativa, em que cada fragmento pode conter desde uma habilidade perdida até um talento específico. Esse sistema de recompensa faz com que o jogador siga engajado na exploração minuciosa e ainda consegue adicionar um peso emocional a cada nova descoberta.
O combate no estilo souls-like talvez seja o ponto mais forte e o que faz esse jogo da Voidmaw brilhar de verdade, pois diferente de muitos títulos que simplesmente copiam a fórmula dos Souls, finalmente temos um indie com um sistema que consegue compreender a essência do gênero: timing preciso, posicionamento estratégico e consequências reais para cada erro. Tudo fruto do trabalho intenso do desenvolvedor, que passou três anos refinando o gameplay e sistema para alcançar um resultado em que o combate conseguem ser familiar, para os fãs do gênero, enquanto se apresenta como único para ter força em atrair novos jogadores. Sua arma, a katana, vai muito além de sua função básica e se torna uma extensão das habilidades de movimento do personagem, permitindo movimentos insanos e que permeia todo o sistema de combate, em que cada golpe pode ser tanto uma ação ofensiva quanto uma ferramenta de navegação pelo ambiente.

Não se deixe enganar achando que a katana, pelo trocadilho com o nome do jogo, seja apenas a única opção disponível no arsenal de Katanaut, pois as alternativas vão muito além desse ícone do combate corpo a corpo. Você terá acesso a diversas armas desbloqueáveis e habilidades mágicas, permitindo builds muito variadas e que acompanham o sistema de combate veloz e responsivo. Essas técnicas especiais incluem opções que ampliam a maneira de atacar ou se movimentar, adicionando camadas táticas que vão além de um simples hack-and-slash. O sistema de implantes e vantagens também permitem personalizações profundas, desde aumento de estamina até regeneração de vida ao entrar em novos níveis.
Balanceamento de outro mundo
Todos os elementos de Katanaut foram cuidadosamente balanceado, em que de um lado você tem o sistema de munição limitada para armas de fogo, que força os jogadores a serem estratégicos com seus recursos, enquanto de outro as habilidades especiais possuem cooldowns que incentivam o uso inteligente ao invés de ficar utilizando gratuitamente para facilitar o progresso.

Outro ponto positivo está em como Katanaut consegue resolver o problema de backtracking tedioso através de sua estrutura roguelite, pois a cada run novos caminhos se abrem e antigos se reconfiguram, mantendo a exploração sempre interessante. A integração entre os elementos metroidvania e roguelite surge de maneira inteligente, em que ao invés de ter um mapa estático para memorizar, os jogadores devem constantemente se adaptar a novos layouts enquanto utilizam habilidades persistentes para superar obstáculos. Uma abordagem que mantém a essência exploratória enquanto elimina a sensação de repetição.
Visualmente, Katanaut é um espetáculo de pixel art, com cada detalhe refinado e desenhado à mão, criando um universo que equilibra beleza e terror de forma magistral. A estética cyberpunk se mistura com horror e funciona perfeitamente, com ambientes que se tornam progressivamente mais perturbadores conforme o jogador avança pela estação.

A trilha sonora synthwave, composta por um único músico talentoso, merece destaque especial. As faixas não apenas complementam a ação intensa das batalhas, mas também pintam perfeitamente a atmosfera sombria dos corredores mais obscuros da estação. Tudo se misturando perfeitamente, com cada slash da katana ecoando pelos corredores vazios e piscantes da estação, criando uma sensação de que cada canto pode estar escondendo uma surpresa à espreita.
Se Katanaut sofre de alguns problemas, eles podem ser percebidos pelas limitações de um projeto independente como, por exemplo, a variedade de ataques limitada e a curva de dificuldade, mesmo com todo o jogo bem calibrado, podendo apresentar picos ocasionais que depende muito do RNG procedural e acaba gerando sequências brutais de inimigos. No entanto, Katanaut é aquele tipo raro de jogo indie que transcende suas limitações orçamentárias através de pura visão criativa e execução impecável, demonstrando como é possível criar algo simultaneamente familiar e revolucionário dentro de um gênero saturado.

Para fãs de Dead Cells, Hades e Hollow Knight, Katanaut oferece uma experiência que honra estes clássicos enquanto forja sua própria identidade única, num jogo que consegue compreender que roguelites são sobre a jornada e não o destino, fazendo com que cada tentativa pela estação condenada seja uma experiência memorável.
Prós:
🔺Combate desafiante e preciso
🔺Atmosfera e direção de arte envolventes
🔺Roguelite com excelente level design
🔺Mecânica de progressão e narrativa com memórias
🔺Ambientação maravilhosa com sci-fi e horror
Contras:
🔻Curva de dificuldade não acompanha o balanceamento do jogo
🔻Pouca variedade de animação, armas e golpes
🔻Usar armas de fogo pode não ser tão fácil
Ficha Técnica:
Lançamento: 10/09/2025
Desenvolvedora: Voidmaw
Distribuidora: Voidmaw
Plataformas: PC


