Quem diria que Garou: Mark of the Wolves receberia uma continuação após 26 anos? Eu estava na torcida para Fatal Fury fazer seu retorno no nível de The King of Fighters XV, outra franquia ressuscitada pela SNK e que deu super certo. A empresa originalmente japonesa – que desde 2022 é propriedade do príncipe herdeiro da Arábia Saudita – ficou famosa com seus jogos de luta, como Art of Fighting, Samurai Shodown e The Last Blade. Dominou também outros gêneros, juntando em seu catálogo vários clássicos dos fliperamas como Metal Slug. Desde o anúncio de Fatal Fury: City of the Wolves na EVO 2022, a expectativa era alta.
A sequência entrou em produção logo após a conclusão do desenvolvimento de The King of Fighters XV. Na EVO 2023, surgiu o primeiro trailer de gameplay de Fatal Fury: City of the Wolves, confirmando que seguiria o visual em 2.5D e utilizando cel shading. De lá pra cá anunciaram mais alguns detalhes, promoveram o game no WrestleMania 41 e no Raw, e revelaram que duas celebridades estariam no jogo como personagens jogáveis: o DJ e produtor musical Salvatore Ganacci e o jogador de futebol Cristiano Ronaldo.

Lutadores antigos, alguns novos e dois intrusos
Dos 17 personagens no lançamento, temos o retorno de vários lutadores tradicionais como Terry Bogard, Mai Shiranui, Billy Kane, Gato e B. Jenet, dentre muitos outros. Alguns deles sofreram mudanças significativas no visual como Hokutomaru, que deixou de ser um garotinho caricato. Quanto aos novos lutadores, temos quatro: Preecha (uma estudante do Joe Higashi), Vox Reaper (o atual guarda-costa de Kain R. Heinlein), e os já citados Salvatore Ganacci e Cristiano Ronaldo. Temos ainda o Nightmare Geese e o Fallen Rock como chefões em suas versões sombrias. Estes dois não são jogáveis, apenas a versão normal do Rock.
Claro que a inclusão de Cristiano Ronaldo gerou controvérsias e, bem, o C7 não combina com o universo de Fatal Fury ou qualquer jogo de luta existente. É como colocar o Pernalonga em Mortal Kombat. Jogando com ele, fica evidente o conflito dos mundos: C7 não tem nenhuma característica de lutador, seus golpes são executados com uma bola “mágica” que aparece e desaparece quando necessário, e a comemoração envolve o famoso pulo e o grito de “siiii!” ao pousar. Até seus especiais são patéticos. É uma forçação de barra tão grande que isso me leva a crer que foi uma decisão vinda do marketing e do próprio príncipe.

Salvatore Ganacci pelo menos tem um motivo pra estar no game: ele ficou responsável por juntar DJs do mundo inteiro pra compôr a trilha sonora do game. Mas exceto pela música do menu principal e algumas outras, a grande maioria soa genérica demais: são bem produzidas, mas não criam um forte vínculo com o personagem que cada música representa como tema. Já no gameplay, Salvatore é tão ruim de jogar quanto o C7, com golpes debochados e movimentos que desafiam a gravidade e o bom senso.
A boa notícia é que o roster aumentará com a primeira temporada de Fatal Fury: City of the Wolves, trazendo Andy Bogard, Joe Higashi, Mr. Big (de Art of Fighting) e também dois lutadores da Capcom, Chun-Li e Ken Masters. Um DLC bem vindo e que pode abrir o leque de opções para as próximas temporadas, quem sabe com personagens vindos de franquias menos exploradas da SNK, como World Heroes e Rage of the Dragons.

Episódios em South Town e o modo Arcade
Como um apreciador casual de jogos de luta, fiz questão de começar testando os modos singleplayer de Fatal Fury: City of the Wolves. Temos o modo história, intitulado Episódios em South Town, e o Arcade dentro do modo offline. Em South Town, você escolhe um lutador e encara desafios crescentes com lutas de 1×1 a 1×4, algumas com modificadores (favorecendo o adversário) e chefes. Você navega livremente pelo mapa escolhendo qual desafio fazer, enquanto sobe de nível e desbloqueia recompensas e melhorias de habilidades pro personagem escolhido.
Você explora três áreas sequênciais – Central City, Second South e East Island – pra chegar na Torre Geese, seu destino final pra concluir esse modo história. Você pode encarar adversários em nível maior quando quiser, caso já esteja acostumado com os combos e as novas mecânicas do sistema REV. Episódios em South Town acaba funcionando como um grande tutorial, sendo bem mais divertido que o tutorial básico encontrado no modo offline, dentro da opção Prática. E depois de finalizado, é desbloqueado o South Town+ com desafios maiores. Já em Arcade, que também entrega um desfecho pra cada personagem, a coisa é mais rápida: você enfrenta apenas 7 adversários e pronto.

S.G.P. e o Sistema REV
Muitas das mecânicas originais de Garou: Mark of the Wolves seguem presentes neste novo game. O antigo T.O.P. virou S.P.G. (Selective Potential Gear) e funciona basicamente do mesmo jeito, com opção pra escolher a posição dessa barra no seu HP (no início, meio ou final). Com essa barra ativada, você desfere o REV Blow (semelhante ao EX do Street Fighter) pra quebrar a defesa ou ataque do adversário, além de aprimorar especiais e poder realizar o Hidden Gear do seu personagem, que exige duas barras cheias e o S.G.P. Certamente são as animações mais caprichadas de todo o game.
Tem defesa perfeita, contra-ataque, técnicas diferentes pra criar combos, e um limitador pro jogador não abusar do S.G.P., que fica superaquecido temporariamente se atingir 100%. As duas barras de especial também podem ser utilizadas pra ativar os Ignition Gears e Redline Gears do seu personagem. E é importante destacar que o gameplay de Fatal Fury: City of the Wolves é mais desacelerado que The King of Fighters XV. Isso acaba favorecendo o combate mais estratégico, dando tempo pros jogadores reagirem. Aliás, não tive problemas pra jogar online, seja em partida casual ou ranqueada. O crossplay funciona muito bem.

Quanto aos estágios, tem vários novos mas tem também alguns clássicos repaginados, como o trem em movimento do estágio de Terry Bogard, o submarino encalhado no porto de B. Jenet, e o ringue de Tizoc, todos muito bonitos. O que não me agradou foi a simplifcação das animações que ocorrem ao fundo do cenário, especialmente das pessoas torcendo. São todas apresentadas em baixa qualidade, com repetições de movimentos e com redução no frame rate. Fizeram a mesma coisa no The King of Fighters XV.
Agora se tem uma coisa que faltou em Fatal Fury: City of the Wolves foi uma boa direção de arte para os menus. Foi tudo organizado em quadrados, inclusive replicando as mesmas decisões ruins de The King of Fighters XV. E tem detalhes que não dá pra entender, como haver uma tela de seleção de personagem caprichada – que aparece em vários modos – e não ser a mesma que aparece no Arcade, apresentando uma variação toda blocada e feia de doer.

Tem outras coisas estranhas, como o Episódios em South Town oferecer só um único minigame (de quebrar garrafas com Marco Rodriguez). E a animação de abertura, que é toda no estilo anime, também carece de capricho nos efeitos sonoros, ficando limpo demais enquanto o pau quebra entre os lutadores. Ok, são pequenos detalhes, mas incomodam.
Fatal Fury: City of the Wolves, mesmo não alcançando a perfeição que foi Garou: Mark of the Wolves em sua época, entrega um ótimo jogo e com espaço pra crescer muito mais com as futuras atualizações. Eu sempre gostei muito de Fatal Fury e ver este retorno da franquia após tanto tempo é uma grande conquista pra comunidade de jogos de luta. Que venham os campeonatos!
Prós:
🔺O novo visual combinou demais com Fatal Fury
🔺Boa quantidade inicial de lutadores
🔺Gameplay satisfatório, com novas mecânicas
🔺Crossplay e Netcode de rollback
Contras:
🔻Os modo singleplayer são rasos de história
🔻Menus pobres, sem inspiração
🔻Trilha com muitas músicas genérica
🔻Celebridades que viraram lutadores ruins
Ficha Técnica:
Lançamento: 24/04/25
Desenvolvedora: KOF Studio
Distribuidora: SNK
Plataformas: PS5, Xbox Series, PC
Testado no: PC


