Poucos RPGs carregam tanta afetividade entre os fãs da franquia Tales of quanto Eternia. Lançado originalmente em 2001, o jogo retorna agora em Tales of Eternia Remastered, desenvolvido pela TOSE e publicado pela Bandai Namco, com versões para a nova geração. A proposta também não é reinventar a obra, mas preservar sua identidade enquanto a torna mais confortável para quem chega agora e mais prazerosa para quem guarda memórias do original.
Dois mundos à beira do fim
A aventura acompanha Reid Hershel, um espadachim descomplicado, e Farah Oersted, sua amiga de infância, na tranquila vila de Rasheans, em Inferia. A rotina dos dois é interrompida pela queda de Meredy, uma jovem misteriosa que fala um idioma desconhecido e chega carregando um aviso catastrófico. A partir desse encontro, o trio se envolve em uma jornada que revela a existência de Celestia, um mundo separado de Inferia, e da Grande Queda, uma colisão capaz de destruir ambos os reinos.

O roteiro segue estruturas familiares do JRPG, com heróis improváveis, espíritos elementais e uma ameaça de escala global, mas ganha força pela química do elenco. Reid, Farah, Meredy, Keele e os demais companheiros formam um grupo carismático, e as conversas curtas continuam sendo um dos grandes trunfos da experiência. Elas humanizam as relações, criam humor sem prejudicar o ritmo e ajudam a construir uma sensação de amizade que sustenta a campanha mesmo quando o enredo recorre a soluções já vistas no gênero.
A narrativa também se beneficia do contraste entre Inferia e Celestia, pois os dois mundos possuem culturas, conflitos e problemas próprios, e a progressão pela história transforma a viagem em algo maior do que uma simples corrida contra o apocalipse. Há críticas sociais, dilemas políticos e personagens secundários que deixam marcas, ainda que alguns arcos possam parecer apressados diante do tamanho da aventura.

Um clássico moderno atualizado
Tales of Eternia Remastered é uma edição remasterizada no sentido mais honesto da palavra, em que a estrutura, o mapa, os eventos e o equilíbrio permanecem reconhecíveis, mas a Bandai Namco e a TOSE adicionaram uma camada generosa de recursos de qualidade de vida.
Marcadores de destino indicam a próxima missão, itens valiosos e oportunidades de aprendizado, enquanto o jogador pode desativar encontros aleatórios, acelerar o deslocamento pelos cenários e usar um modo de alta velocidade nas batalhas automáticas.

O Boost é talvez a adição mais versátil, permitindo que você ajuste a experiência, frequência de encontros, velocidade de aprendizado de técnicas e outros elementos da progressão, criando uma experiência moldável sem alterar o jogo original de forma invasiva.
Battle Retry e Quick Recovery também reduzem a frustração em derrotas e tornam o retorno ao combate mais ágil, enquanto o modo Extreme já está disponível desde o início e a nova dificuldade Unknown é liberada após a conclusão da campanha.

Outra melhoria bem-vinda é a possibilidade de alternar entre visuais e efeitos sonoros remasterizados ou originais. Os sprites ganham definição em telas modernas, os retratos aparecem mais nítidos e o áudio soa mais limpo, mas quem deseja a atmosfera do PlayStation pode retornar à apresentação clássica a qualquer momento. O Skit Player e o Sound Player também valorizam o conteúdo secundário, permitindo rever conversas e ouvir a trilha fora das batalhas e explorações.
O coração de Tales of Eternia Remastered segue sendo o Aggressive Linear Motion Battle System, o A-LMBS. As lutas acontecem em um plano 2D, com movimentação livre, troca imediata entre personagens, uso de Artes, combos e coordenação com os aliados controlados pela inteligência artificial. O sistema continua ágil, direto e surpreendentemente divertido, oferecendo uma sensação de ação que muitos RPGs por turnos não conseguem reproduzir.

Os Craymels Superiores ampliam a profundidade do sistema, com espíritos elementais que podem ser equipados, evoluídos e combinados para desbloquear magias diferentes, e suas invocações continuam sendo momentos visualmente marcantes. A possibilidade de estender feitiços em versões mais poderosas, além de criar sequências cooperativas entre os membros do grupo, mantém o combate interessante mesmo depois de dezenas de horas.
A dificuldade oscila de forma inteligente ao longo da história, com encontros comuns que podem ser resolvidos rapidamente, mas os chefes continuam exigindo atenção às posições, ao gerenciamento de recursos e às configurações dos aliados. Para quem preferir uma jornada mais tranquila, as novas opções tornam o jogo acessível sem transformar a experiência em um mero modo fácil.

Um marco na evolução da série Tales of
Dentro da franquia, Tales of Eternia ocupa um lugar importante por consolidar elementos que se tornariam marca registrada da série. O combate em tempo real, os skits, os personagens carismáticos e a mistura entre aventura tradicional e sistemas de crescimento complexos aparecem aqui com uma maturidade que ajuda a explicar a longevidade de Tales of. Mais de duas décadas depois, é fácil perceber como o jogo influenciou títulos posteriores, mesmo aqueles que abandonaram parte de sua apresentação 2D.
A remasterização também reforça uma tendência positiva da Bandai Namco ao resgatar clássicos sem descaracterizá-los. Em vez de apostar em um remake caro e arriscado, a empresa optou por modernizar a usabilidade, ampliar as opções de acessibilidade e preservar aquilo que fez o jogo ser amado. Essa escolha beneficia principalmente novos jogadores, que encontram um JRPG antigo sem muitas das barreiras típicas de sua época.

A direção de arte continua sendo um dos maiores encantos de Tales of Eternia. Os cenários coloridos, os sprites expressivos e os efeitos das magias criam uma identidade visual que envelheceu melhor do que muitos jogos 3D da mesma geração. A versão remasterizada deixa esses elementos mais nítidos sem apagar o charme pixelado, e a alternância entre os modos gráficos funciona como uma ponte afetiva entre passado e presente.
A trilha sonora de Motoi Sakuraba permanece eficiente e cheia de personalidade, acompanhando vilas, florestas, batalhas e momentos dramáticos com melodias que se fixam com facilidade. Os efeitos sonoros também ganham peso, especialmente nos golpes, feitiços e invocações.

Tales of Eternia Remastered é a melhor forma de conhecer um dos JRPGs mais queridos da era PlayStation. O jogo mantém sua alma intacta, entrega um sistema de combate que ainda diverte muito e finalmente oferece as ferramentas necessárias para que sua aventura seja aproveitada sem desgaste desnecessário. Não é uma revolução técnica, mas é um resgate carinhoso, competente e necessário. Para fãs da franquia e para quem deseja entender por que Tales of conquistou uma legião de seguidores, esta é uma compra fácil de recomendar.
Prós:
🔺Combate 2D em tempo real ainda é muito divertido
🔺Elenco carismático e diálogos memoráveis
🔺Excelentes adições de qualidade de vida e acessibilidade
🔺Alternância entre visuais e áudio originais e remasterizados
🔺Novas dificuldades e conteúdo extra disponível antes do fim do jogo
Contras:
🔻Quem espera um remake visual completo pode se decepcionar
🔻Ritmo e exploração ainda seguem padrões antigos do gênero
🔻Até quando legendas em PT-BR vão ficar fora da franquia?
Ficha Técnica:
Lançamento: 15/10/2026
Desenvolvedora: TOSE
Distribuidora: Bandai Namco
Plataformas: PC, PS5, Switch 2, XBox Series
Testado no: PS5


